Fórum

arrow_back

Doença renal em cães nos últimos anos: aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos

REDAÇÃO VET BR

26/03/2026 18:32:45

Introdução

A nefrologia na clínica de pequenos animais passou por uma profunda atualização de conceitos e condutas na última década. A doença renal em cães, uma das condições mais prevalentes na rotina, especialmente em pacientes geriátricos, caracteriza-se por alterações estruturais e funcionais que comprometem a homeostase do organismo. Os avanços recentes na compreensão da fisiopatologia, no uso de novos biomarcadores para diagnóstico precoce e na introdução de terapias extracorpóreas contribuíram significativamente para a melhoria do prognóstico e da qualidade de vida dos pacientes.

1. Classificação e mudança de nomenclatura (LRA e DRC)

A abordagem clínica atual divide as afecções renais em Lesão Renal Aguda (LRA) e Doença Renal Crônica (DRC). O termo LRA substituiu a antiga "Insuficiência/Doença Renal Aguda", pois engloba desde injúrias renais subclínicas e leves até a falência aguda propriamente dita. A LRA apresenta início súbito e potencial reversibilidade, frequentemente associada a nefrotoxinas, isquemia, infecções (como a leptospirose) e obstruções.

Já a DRC é caracterizada pela perda progressiva e irreversível da massa de néfrons funcionais. A progressão da doença envolve mecanismos de hiperfiltração glomerular compensatória, ativação excessiva do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), inflamação crônica e fibrose túbulo-intersticial.

2. Epidemiologia e fatores de risco

A DRC apresenta maior casuística em cães idosos, refletindo o aumento da expectativa de vida da espécie. No entanto, cães jovens também são acometidos devido a nefropatias congênitas ou displasias renais (com predisposição racial em Shih Tzus, Lhasa Apsos e Golden Retrievers). Fatores de risco sistêmicos incluem o uso prolongado de fármacos nefrotóxicos (AINEs, aminoglicosídeos) e comorbidades infecciosas endêmicas, com destaque para a leishmaniose visceral canina e a erliquiose, que frequentemente cursam com glomerulonefrites severas.

3. Diagnóstico, estadiamento e novos biomarcadores

O diagnóstico e o estadiamento precisos são fundamentais e devem seguir estritamente as diretrizes da IRIS (International Renal Interest Society). O diagnóstico laboratorial padrão envolve ureia, creatinina, urinálise completa (focada na densidade urinária e na relação proteína/creatinina urinária - RPC) e ultrassonografia para avaliação estrutural.

Os maiores avanços diagnósticos recentes concentram-se nos biomarcadores. A dimetilarginina simétrica (SDMA) consolidou-se na rotina por permitir a detecção da disfunção renal de forma mais precoce que a creatinina e por não sofrer influência significativa da massa muscular do paciente. Mais recentemente, o Fator de Crescimento de Fibroblastos 23 (FGF-23) passou a ser utilizado como o marcador mais precoce para o distúrbio mineral e ósseo da DRC (hiperparatireoidismo secundário renal), alterando-se muito antes da hiperfosfatemia se instalar.

4. Manifestações clínicas

As manifestações clínicas são diretamente proporcionais à perda de néfrons. Nos estágios iniciais (IRIS 1 e 2), a doença costuma ser silenciosa ou apresentar poliúria e polidipsia discretas. Com a progressão (IRIS 3 e 4), surgem perda de peso, hiporexia, vômitos, letargia e halitose urêmica. O quadro de síndrome urêmica representa a fase mais grave, caracterizada por estomatite, gastrite severa, anemia arregenerativa profunda, hipertensão arterial, acidose metabólica e distúrbios eletrolíticos refratários.

5. Manejo terapêutico e controle da proteinúria

O manejo da doença renal é multimodal e visa retardar a progressão e mitigar as consequências sistêmicas. Os pilares do tratamento incluem:

  • Terapia nutricional: Dietas renais formuladas com restrição rigorosa de fósforo e níveis controlados de proteína de alto valor biológico.
  • Controle da proteinúria: Além do uso tradicional de inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA, como enalapril ou benazepril), a adoção de bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA), com forte destaque para a telmisartana, tornou-se a abordagem de eleição para o controle rigoroso da perda proteica renal.
  • Controle da hipertensão: O anlodipino (bloqueador de canais de cálcio) permanece como primeira escolha terapêutica, frequentemente associado aos IECAs/BRAs.
  • Manejo de suporte: Correção da desidratação via fluidoterapia, uso de antieméticos (maropitant, ondansetrona), correção de distúrbios ácido-base e tratamento da anemia (eritropoietina ou darbepoetina).

6. Terapias extracorpóreas

Diferente do que ocorria no passado, as terapias de substituição renal não são mais experimentais na medicina veterinária. A hemodiálise e a hemoperfusão tornaram-se realidades clínicas consolidadas nos grandes centros de referência. Elas são o tratamento de eleição, e muitas vezes a única chance de sobrevivência, para cães com LRA oligúrica/anúrica (comum em intoxicações e quadros agudos de leptospirose), bem como para a estabilização de pacientes com DRC que sofrem descompensação aguda severa (LRA sobre DRC).

7. Prognóstico e qualidade de vida

O prognóstico renal é estritamente dependente do estadiamento precoce e da adesão ao tratamento. Na LRA, a intervenção rápida, especialmente com suporte extracorpóreo, pode resultar em recuperação total ou parcial da função. Na DRC, a abordagem foca no controle da taxa de progressão clínica. O acompanhamento nefrológico contínuo e a comunicação transparente com o tutor garantem a maximização do tempo de sobrevida com a devida qualidade.

Conclusão

A nefrologia canina deixou de ser uma área de tratamentos apenas paliativos ou terminais. A introdução de marcadores como SDMA e FGF-23, o uso de telmisartana para preservação glomerular e a consolidação da hemodiálise elevaram a especialidade a um novo patamar técnico. O sucesso clínico baseia-se atualmente na intervenção precoce, no estadiamento rigoroso pela IRIS e na aplicação de uma medicina de precisão, altamente individualizada para cada paciente.


 Referências

CHEW, D. J.; DIBARTOLA, S. P.; SCHENCK, P. A. Canine and Feline Nephrology and Urology. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2011.

COWGILL, L. D.; LANGSTON, C. E. Extracorporeal renal replacement therapy. Em: CHEW, D. J. et al. Canine and Feline Nephrology and Urology. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2011.

HALL, J. A. et al. Serum symmetric dimethylarginine (SDMA) concentration correlates highly with glomerular filtration rate in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 28, n. 6, p. 1676-1683, 2014.

INTERNATIONAL RENAL INTEREST SOCIETY (IRIS). IRIS staging of CKD. 2023. Disponível em: http://www.iris-kidney.com.

NELSON, R. W.; COUTO, C. G. Small Animal Internal Medicine. 6. ed. St. Louis: Elsevier, 2019.

Palavras-chave: doença renal; cães; nefrologia veterinária; doença renal crônica; lesão renal aguda; SDMA; proteinúria; IRIS; hipertensão; insuficiência renal; medicina veterinária

Autor: Redação Cursos VET BR

 OBS: Este conteúdo foi elaborado com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com curadoria editorial da equipe Vet BR e base em literatura científica e materiais técnicos disponíveis publicamente. Possui caráter informativo e não substitui a avaliação profissional individual.

_______________________________________________________________

Sobre o conteúdo

Os conteúdos publicados neste portal têm caráter exclusivamente informativo e educacional, sendo destinados a estudantes e profissionais da área veterinária.

As informações aqui disponibilizadas não substituem a avaliação clínica individualizada, o diagnóstico ou a conduta terapêutica realizada por um médico-veterinário habilitado.

Uso de Inteligência Artificial

Parte dos conteúdos pode ser elaborada com apoio de ferramentas de inteligência artificial, com curadoria editorial da equipe Vet BR e base em literatura científica e materiais técnicos disponíveis publicamente.

 Responsabilidade

A Vet BR não se responsabiliza por decisões clínicas, condutas profissionais ou quaisquer danos diretos ou indiretos decorrentes da utilização das informações contidas neste site.

Recomendamos que toda decisão profissional seja baseada em avaliação individual do paciente, literatura científica atualizada e, quando necessário, orientação de especialistas.

Atualização das informações

Os conteúdos são produzidos com base em conhecimentos disponíveis no momento da publicação, podendo ser atualizados sem aviso prévio conforme novas evidências científicas se tornem disponíveis.

Privacidade e dados

Respeitamos a sua privacidade. As informações pessoais eventualmente coletadas neste site são tratadas de acordo com a legislação vigente, sendo utilizadas exclusivamente para melhorar a experiência do usuário e comunicação com a Vet BR.

Contato

Em caso de dúvidas, sugestões ou solicitações, entre em contato com a equipe Vet BR através dos canais oficiais disponíveis neste site.

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Política de Privacidade