REDAÇÃO VET BR
26/03/2026 18:31:26
Introdução
A fluidoterapia é a intervenção médica mais prescrita na rotina veterinária, sendo vital para a estabilização de pacientes críticos e correção de desequilíbrios metabólicos. No entanto, fluidos intravenosos devem ser encarados com o mesmo rigor de qualquer outro fármaco: possuem indicações precisas, dosagens específicas e efeitos adversos potencialmente fatais. Nos últimos anos, a terapia intensiva transitou de uma abordagem liberal ("quanto mais fluido, melhor") para protocolos restritivos e guiados por metas. Compreender os erros mais comuns é o primeiro passo para uma prescrição segura e moderna.
1. Confundir Desidratação com Hipovolemia
Este é o erro conceitual mais frequente na rotina.
2. Uso indiscriminado de Coloides Sintéticos
Historicamente, coloides sintéticos (como os amidos hidroxietílicos - HES) eram a primeira escolha para pacientes hipoproteinêmicos. A medicina intensiva moderna abandonou essa prática. Evidências robustas demonstraram que o uso de coloides sintéticos aumenta significativamente o risco de Lesão Renal Aguda (LRA), disfunção plaquetária e coagulopatias, além de não melhorar a sobrevida global. A conduta atual prioriza o uso racional de cristaloides balanceados ou, quando estritamente necessário, coloides naturais (plasma fresco congelado ou albumina).
3. Ignorar o Glicocálix Endotelial e causar Sobrecarga Volêmica
A sobrecarga volêmica (fluid overload) não é apenas um problema de "excesso de água". A infusão rápida e volumosa de cristaloides aumenta a pressão hidrostática e destrói o glicocálix endotelial — a delicada malha de glicoproteínas que reveste o interior dos vasos e impede o vazamento de fluidos. Uma vez que o glicocálix é rompido, o fluido extravasa, causando edema intersticial, edema pulmonar, efusões cavitárias e paralisia gastrointestinal (íleo paralítico). A prevenção exige a aplicação da Fluidoterapia Guiada por Metas, utilizando alíquotas pequenas (10 a 20 mL/kg) e reavaliando constantemente a resposta clínica.
4. Tratar todos os cristaloides como iguais
A escolha entre Solução Fisiológica (NaCl 0,9%) e Ringer Lactato (RL) não deve ser aleatória. O NaCl 0,9% não é "fisiológico"; ele contém níveis de cloreto muito superiores aos do plasma sanguíneo canino e felino. Seu uso prolongado ou em grandes volumes causa acidose metabólica hiperclorêmica e reduz a perfusão renal. Ele deve ser reservado para cenários específicos, como hipoadrenocorticismo, hipercalcemia ou alcalose metabólica severa. Para a maioria dos pacientes (incluindo nefropatas), cristaloides balanceados (como o RL ou Plasma-Lyte) são muito mais seguros e fisiológicos.
5. Utilizar taxas de manutenção fixas e desatualizadas
A antiga regra de prescrever "50 a 60 mL/kg/dia" para qualquer paciente está defasada. As necessidades de fluidos de manutenção não escalam de forma linear com o peso. A recomendação atual das diretrizes da AAHA/AAFP exige o uso de equações alométricas ligadas à taxa metabólica basal. Isso é especialmente crítico em gatos; utilizar regras matemáticas lineares de cães em felinos frequentemente resulta em sobrecarga volêmica iatrogênica em poucas horas de internação.
6. Falta de monitoramento dinâmico e objetivo
Acompanhar a fluidoterapia apenas pela cor da mucosa ou turgor cutâneo é insuficiente. O monitoramento dinâmico exige o acompanhamento de parâmetros objetivos:
7. Não ter um "Plano de Desmame"
A fluidoterapia intravenosa deve ter um objetivo claro de início e um plano estruturado para o término. Manter o paciente "no soro" indefinidamente por comodidade aumenta os riscos de infecção hospitalar, flebite e edema. Assim que a hidratação e a perfusão forem restabelecidas, e o paciente estiver apto a ingerir água voluntariamente ou receber hidratação por sonda enteral, o suporte intravenoso deve ser progressivamente reduzido e descontinuado.
Conclusão
A fluidoterapia moderna na medicina veterinária requer pensamento crítico e abandono de "receitas de bolo". O sucesso terapêutico baseia-se na diferenciação precisa entre desidratação e hipovolemia, na escolha do fluido adequado (evitando coloides sintéticos e cloreto em excesso), na proteção ativa do glicocálix endotelial contra a sobrecarga volêmica e na adoção rigorosa de cálculos metabólicos e monitoramento dinâmico.
Referências
DAVIS, H. et al. 2013 AAHA/AAFP Fluid therapy guidelines for dogs and cats. Journal of the American Animal Hospital Association, v. 49, n. 3, p. 149-159, 2013.
DIBARTOLA, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4. ed. St. Louis: Elsevier, 2011.
MUIR, W. W. et al. Evaluation of the endothelial glycocalyx in dogs and its clinical significance. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, 2022.
SILVERSTEIN, D. C.; HOPPER, K. Small Animal Critical Care Medicine. 3. ed. St. Louis: Elsevier, 2023.
Palavras-chave fluidoterapia veterinária; medicina intensiva; choque hipovolêmico; desidratação; sobrecarga volêmica; glicocálix endotelial; fluidoterapia guiada por metas; cristaloides; medicina veterinária; AAHA fluid guidelines
Autor: Redação Cursos VET BR
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