REDAÇÃO VET BR
26/03/2026 18:29:30
Introdução
O controle da dor em cães e gatos transcende a questão do bem-estar animal; é um pilar crítico para o sucesso clínico e cirúrgico. A dor não tratada desencadeia uma cascata neuroendócrina que causa imunossupressão, retarda a cicatrização e promove a cronificação (hiperalgesia e alodinia). Nos últimos anos, a algologia veterinária passou por transformações profundas, substituindo dogmas antigos por abordagens baseadas em evidências, com destaque para novos instrumentos de avaliação felina, o advento dos anticorpos monoclonais e a consolidação da anestesia locorregional guiada por ultrassom.
1. Fisiologia da dor e o princípio da analgesia multimodal
O processamento da dor nociceptiva envolve quatro etapas sequenciais: transdução (periferia), transmissão (nervos periféricos), modulação (medula espinhal) e percepção (córtex cerebral).
O padrão-ouro atual é a analgesia multimodal (ou balanceada). Em vez de utilizar doses elevadas de um único fármaco, o clínico deve combinar diferentes classes terapêuticas que atuam em pontos distintos dessa via fisiológica. Essa sinergia aumenta drasticamente a eficácia analgésica enquanto reduz a dose individual de cada medicação, minimizando os efeitos adversos sistêmicos.
2. Avaliação da dor: Escala de Glasgow e a Feline Grimace Scale
A premissa básica da analgesia é: não se pode tratar o que não se pode medir. A avaliação subjetiva foi substituída por escalas validadas. Em cães, a Glasgow Composite Measure Pain Scale (CMPS) continua sendo a ferramenta clínica mais confiável para dor aguda.
A grande revolução, no entanto, ocorreu na medicina felina. O mito de que "gatos escondem a dor e são difíceis de avaliar" foi derrubado com a validação da Feline Grimace Scale (FGS). Essa ferramenta permite que o veterinário (e o tutor) avalie a dor aguda do felino de forma rápida e à distância, observando apenas cinco unidades de ação facial: posição das orelhas, abertura orbital, tensão do focinho, posição dos bigodes e alinhamento da cabeça em relação aos ombros.
3. O paradigma dos analgésicos sistêmicos e o alerta sobre o Tramadol
No manejo da dor aguda e perioperatória, os opioides puros (morfina, metadona, fentanil) permanecem insubstituíveis, atuando fortemente na modulação e percepção. Os adjuvantes como a cetamina (em infusões subanestésicas) e a dexmedetomidina desempenham papel crucial na prevenção da sensibilização central (efeito wind-up).
Contudo, a maior quebra de paradigma clínico recente envolve o uso do tramadol em cães. A literatura científica robusta demonstrou que a via metabólica canina produz quantidades ínfimas do metabólito ativo responsável pela analgesia (O-desmetiltramadol - M1). Consequentemente, a eficácia do tramadol via oral em cães é altamente imprevisível e clinicamente questionável. Seu uso como base analgésica isolada para dor ortopédica ou pós-operatória em cães é atualmente desencorajado pelas diretrizes internacionais.
4. Dor Crônica e a revolução dos Anticorpos Monoclonais (Anti-NGF)
O manejo da dor crônica (especialmente a osteoartrite) dependia quase exclusivamente de Anti-Inflamatórios Não Esteroidais (AINEs) associados a moduladores como gabapentina e amantadina. O uso prolongado de AINEs, porém, sempre esbarrou nas limitações renais e gastrointestinais de pacientes geriátricos.
A inovação mais impactante da década nesta área é a terapia com anticorpos monoclonais inibidores do Fator de Crescimento Nervoso (Anti-NGF). O uso de bedinvetmabe (para cães) e frunevetmabe (para gatos), administrados em injeções subcutâneas mensais, oferece um controle analgésico superior, bloqueando diretamente a sinalização da dor articular periférica, com um perfil de segurança sistêmica (hepática e renal) sem precedentes.
5. Anestesia Locorregional ecoguiada
A transição dos bloqueios regionais "às cegas" (baseados em marcos anatômicos) para a anestesia regional guiada por ultrassom elevou a segurança e a taxa de sucesso cirúrgico. Técnicas avançadas, como o bloqueio do plano transverso do abdome (TAP block), bloqueio do quadrado lombar (QL block) e bloqueio dos nervos radioulnar, mediano e musculocutâneo (RUMM block), tornaram-se rotina em centros cirúrgicos modernos. O bloqueio locorregional eficaz é a única técnica capaz de abolir completamente a etapa de transdução e transmissão da dor, reduzindo drasticamente a necessidade de anestésicos inalatórios (poupador de isoflurano).
6. Erros comuns no controle da dor
A falha terapêutica na rotina clínica geralmente decorre de:
Conclusão
O controle da dor veterinária exige atualização constante e abandono de práticas empíricas. A incorporação da Feline Grimace Scale para triagem, a substituição de protocolos ineficazes (como a dependência do tramadol em cães) pelo uso estratégico de bloqueios ecoguiados e a prescrição de anticorpos monoclonais para dor crônica representam a prática veterinária de excelência. A analgesia multimodal, amparada pelas diretrizes globais da WSAVA e AAHA, é a garantia técnica do compromisso ético com o bem-estar do paciente.
Referências
EVANGELISTA, M. C. et al. Feline Grimace Scale: a validation study. Scientific Reports, v. 9, n. 1, p. 1-11, 2019.
GRIMM, K. A. et al. Veterinary Anesthesia and Analgesia: The Fifth Edition of Lumb and Jones. 5. ed. Ames: Wiley-Blackwell, 2015.
GRUEN, M. E. et al. 2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association, v. 58, n. 2, p. 55-76, 2022.
MONTEIRO, B. P. et al. 2022 WSAVA guidelines for the recognition, assessment and treatment of pain. Journal of Small Animal Practice, v. 64, n. 4, p. 177-254, 2022.
Palavras-chave dor em animais; analgesia veterinária; cães; gatos; analgesia multimodal; anestesia locorregional; Feline Grimace Scale; dor crônica; dor aguda; medicina veterinária; anticorpos monoclonais; tramadol
Autor: Redação Cursos VET BR
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