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Atendimento emergencial em cães e gatos: o protocolo que todo veterinário precisa dominar

REDAÇÃO VET BR

26/03/2026 18:27:37

Introdução

O atendimento emergencial em pequenos animais exige raciocínio rápido, precisão técnica e controle emocional sob extrema pressão. A sala de emergência deixou de ser um ambiente de condutas empíricas para se tornar o palco da medicina baseada em evidências. Nos últimos anos, a abordagem emergencial evoluiu de avaliações puramente clínicas para um modelo sistematizado de intervenções precoces, guiadas por metas hemodinâmicas rigorosas e protocolos globais validados de reanimação.

1. A mudança de paradigma: do ABCDE ao C-A-B

Historicamente, a avaliação inicial seguia o mnemônico ABCDE (Airway, Breathing, Circulation, Disability, Exposure). Essa abordagem sistêmica continua válida para a triagem primária de pacientes conscientes.

No entanto, para pacientes inconscientes, apneicos ou em colapso agudo, as diretrizes globais de reanimação (RECOVER 2.0) estabeleceram o protocolo C-A-B (Compressões, Vias Aéreas, Respiração). A prioridade absoluta tornou-se o reconhecimento precoce da parada cardiorrespiratória (PCR) e o início imediato das compressões torácicas para garantir o retorno da circulação espontânea (ROSC), postergando a intubação para os ciclos subsequentes.

2. Triagem e o advento do ultrassom POCUS

A avaliação primária tradicional (frequência cardíaca, tempo de preenchimento capilar, cor de mucosas) deve ser realizada em menos de dois minutos. A grande revolução nesta etapa é a incorporação obrigatória do ultrassom Point-of-Care (POCUS).

O uso dos protocolos AFAST (avaliação abdominal), TFAST (avaliação torácica) e Vet BLUE (avaliação pulmonar) substituiu o demorado exame radiográfico na sala de emergência. O POCUS permite diagnosticar efusões cavitárias (hemoperitônio, uroperitônio), pneumotórax, tamponamento cardíaco e edema pulmonar em poucos minutos, diretamente na mesa de triagem, acelerando intervenções salvadoras de vidas como a toracocentese.

3. Estabilização e Fluidoterapia Guiada por Metas

A estabilização inicial foca na oxigenação, controle da dor (uso precoce de opioides puros) e suporte hemodinâmico. A abordagem ao choque sofreu uma mudança drástica.

A medicina intensiva moderna abandonou as antigas "taxas de choque" com volumes massivos de cristaloides (como 90 mL/kg para cães). O foco atual é a Fluidoterapia Guiada por Metas e a ressuscitação de pequeno volume (alíquotas de 10 a 20 mL/kg, reavaliadas continuamente). O objetivo é proteger o glicocálix endotelial e evitar o edema intersticial e a sobrecarga hídrica. Em quadros de choque vasoplégico (como a sepse), a introdução precoce de vasopressores, especialmente a noradrenalina, superou a expansão volêmica indiscriminada.

4. Principais emergências na rotina clínica

  • Choque e Trauma: Requerem identificação do fenótipo (hipovolêmico, obstrutivo, distributivo ou cardiogênico). O trauma exige controle mecânico imediato de hemorragias (compressão, torniquetes) e analgesia agressiva antes de qualquer manipulação adicional.
  • Parada Cardiorrespiratória (PCR): Aplicação rigorosa dos algoritmos de Suporte Básico (BLS) e Suporte Avançado (ALS) do RECOVER 2.0. Ciclos ininterruptos de 2 minutos com 100 a 120 compressões por minuto, monitoramento guiado por capnografia (ETCO2) e administração de vasopressores (epinefrina) e antiarrítmicos (amiodarona) conforme o ritmo eletrocardiográfico.
  • Emergências Neurológicas (Status Epilepticus): Controle imediato das crises com benzodiazepínicos (diazepam, midazolam) e introdução rápida de anticonvulsivantes de manutenção (fenobarbital, levetiracetam) para proteger o encéfalo da hipóxia e do superaquecimento.

5. Monitoramento contínuo

O paciente estabilizado entra na fase de cuidados críticos. O monitoramento exige a transição de avaliações manuais para o uso de tecnologias contínuas: eletrocardiografia, oximetria de pulso, capnografia, mensuração de pressão arterial (preferencialmente invasiva em pacientes instáveis), débito urinário e oximetria venosa central, permitindo o reconhecimento instantâneo de qualquer deterioração.

6. Organização e comunicação da equipe

O sucesso da emergência depende da organização humana. A equipe deve operar sob funções pré-definidas (líder, compressor, ventilador, registro, acesso vascular). A adoção da comunicação em alça fechada (closed-loop communication), onde as ordens são repetidas em voz alta pelo receptor antes e após a execução, é essencial para evitar erros de dosagem medicamentosa no calor do momento.

Conclusão

A medicina de emergência veterinária atual não tolera empirismo. O domínio absoluto dos protocolos de reanimação C-A-B, a adoção do ultrassom point-of-care na triagem primária e o uso racional da fluidoterapia são competências inegociáveis. A padronização de condutas através de diretrizes globais e o treinamento rigoroso da equipe representam a linha divisória entre o óbito e o sucesso clínico em situações críticas.

 

Referências

DROBATZ, K. J. et al. Textbook of Small Animal Emergency Medicine. 1. ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2018.

FLETCHER, D. J. et al. RECOVER 2.0 guidelines for cardiopulmonary resuscitation in small animals. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, 2024.

LISCIANDRO, G. R. Point-of-Care Ultrasound Techniques for the Small Animal Practitioner. 2. ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2021.

SILVERSTEIN, D. C.; HOPPER, K. Small Animal Critical Care Medicine. 3. ed. St. Louis: Elsevier, 2023.

Palavras-chave emergência veterinária; atendimento emergencial; cães; gatos; protocolo C-A-B; choque; trauma; PCR; cuidados intensivos; medicina veterinária; diretrizes RECOVER; ultrassom POCUS; fluidoterapia guiada por metas

Autor: Redação Cursos VET BR

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