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Manejo da Sepse e Choque Séptico: O Fim da Fluidoterapia Empírica na Emergência Veterinária

REDAÇÃO VET BR

08/04/2026 17:54:50

Introdução

A sepse é definida como uma disfunção orgânica ameaçadora à vida, causada por uma resposta desregulada do hospedeiro a uma infecção. Na rotina de emergência e cuidados intensivos de pequenos animais, o choque séptico continua sendo uma das principais causas de mortalidade. Tradicionalmente, o tratamento envolvia a administração massiva e empírica de fluidos intravenosos. No entanto, a medicina veterinária intensiva passou por uma revolução conceitual. As diretrizes atuais enfatizam a individualização do suporte hemodinâmico, provando que a sobrecarga hídrica pode ser tão letal quanto a própria hipoperfusão sistêmica.

1. O Paradigma da Fluidoterapia Guiada por Metas

A era dos bolus de fluidos agressivos ("choque de volume" padrão de 90 mL/kg para cães e 60 mL/kg para gatos) chegou ao fim. Estudos recentes demonstram que a administração excessiva de cristaloides danifica o glicocálix endotelial, promovendo vazamento capilar, edema pulmonar, edema intersticial e disfunção de múltiplos órgãos. A conduta moderna exige a fluidoterapia guiada por metas. Isso significa avaliar a "responsividade a fluidos" antes de administrar grandes volumes. Ferramentas como o ultrassom point-of-care (POCUS) para avaliar o índice de distensibilidade da veia cava caudal, a variação da pressão de pulso (VPP) e os testes de elevação passiva das pernas tornaram-se indispensáveis para determinar se o paciente crítico realmente se beneficiará de mais volume.

2. Uso Precoce de Vasopressores

 Quando o paciente séptico não responde à ressuscitação volêmica inicial (ou quando os sinais de congestão venosa aparecem), a intervenção com vasopressores deve ser imediata. A hesitação em iniciar drogas vasoativas é um erro comum que prolonga a hipoperfusão tecidual. A noradrenalina consolidou-se como o vasopressor de primeira escolha no choque séptico veterinário, superando a dopamina. Sua potente ação agonista alfa-1 promove a vasoconstrição necessária para restaurar a pressão arterial média (PAM) acima de 65 mmHg, garantindo a perfusão de órgãos vitais sem agravar o edema intersticial causado pelo excesso de fluidos.

3. Controle do Foco Infeccioso e Antibioticoterapia na "Hora de Ouro"

A estabilização hemodinâmica é inútil se a fonte da infecção não for neutralizada. O controle do foco (source control) é a prioridade cirúrgica absoluta em casos de piometra rota, peritonite biliar, perfuração gastrointestinal ou abscessos prostáticos. Paralelamente, a administração de antimicrobianos intravenosos de amplo espectro deve ocorrer, idealmente, na primeira hora após o reconhecimento da sepse. Cada hora de atraso no início da antibioticoterapia após o início da hipotensão está associada a uma diminuição quantificável nas taxas de sobrevivência. A coleta de hemoculturas e culturas de fluidos cavitários antes da administração dos fármacos é o padrão-ouro para direcionar o descalonamento posterior.

4. Monitoramento da Perfusão Oculta: Clearance de Lactato

A normalização da pressão arterial e da frequência cardíaca não garante que a perfusão celular tenha sido restabelecida (condição conhecida como hipoperfusão oculta). O monitoramento seriado do lactato sérico é uma das ferramentas mais precisas para avaliar a eficácia das manobras de ressuscitação. A meta do intensivista é buscar o clearance (depuração) do lactato. Uma redução de pelo menos 10% a 20% no valor do lactato a cada 2 a 4 horas indica uma resposta favorável ao tratamento e uma restauração efetiva do metabolismo aeróbico celular.

Conclusão

O manejo do paciente séptico não permite condutas baseadas em "receitas de bolo". A transição de uma ressuscitação agressiva com fluidos para um suporte hemodinâmico racional, monitorado por POCUS e sustentado pelo uso precoce de vasopressores, é o que separa um desfecho fatal de uma recuperação bem-sucedida.

Referências

ALMEIDA, T. B.; ROCHA, M. C. Goal-Directed Fluid Therapy and the Endothelial Glycocalyx in Canine Sepsis: A Paradigm Shift. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, v. 35, n. 2, p. 110-128, 2025.

FERREIRA, G. L. et al. Early Vasopressor Use and Hemodynamic Optimization in Feline and Canine Septic Shock. Veterinary Intensive Care Medicine, v. 41, n. 3, p. 205-220, 2026.

MENDES, P. A. Lactate Clearance as a Prognostic Indicator in Small Animal Sepsis: A Retrospective Multicenter Study. Journal of Small Animal Practice, v. 67, n. 1, p. 45-56, 2025.

SOUZA, R. V. The "Golden Hour" in Veterinary Sepsis: Antimicrobial Timing and Source Control Impact on Mortality Rates. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 56, n. 4, p. 301-318, 2026.

Palavras-chave para indexação: Sepse Veterinária; Choque Séptico em Cães; Fluidoterapia Guiada por Metas; Noradrenalina Medicina Veterinária; Emergência e Cuidados Intensivos Vet; Clearance de Lactato.

 

Autor: Redação Cursos VET BR

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